segunda-feira, 27 de junho de 2016

Guerra do Velho no Vórtice Fantástico

201606252359P7 — 20.442 D.V.

“— Ouvi dizer que eles são criados a partir dos mortos. — Cained falou. — O padrão genético de humanos mortos é fundido ao material genético de outras espécies, em busca de resultados.  Alguns desses resultados nem sequer parecem humanos, como vocês se reconhecem como tais.  Nascem como adultos, com destreza e habilidades, mas sem memórias.  E não é só sem memórias.  Sem identidade.  Sem moralidade.  Sem restrições.  Sem... — Ele parou, como se buscando a palavra correta. — Sem humanidade. — Ele a encontrou, finalmente. — Como vocês diriam.  Crianças-soldado em corpos de adultos.  Abominações.  Monstros.  Ferramentas que a sua União Colonial usa nas missões em que ela não deseja ou não pode empregar soldados que possuem experiência de vida e senso moral.  Ou que possam temer por suas almas, neste mundo ou no próximo.”
(John Scalzi, The Ghost Brigades)

Compareci neste fim de tarde de inverno para mais uma sessão mensal do núcleo carioca do Vórtice Fantástico.  Como desta vez nos reunimos duas horas mais tarde do que nosso horário habitual das 15h00, optamos por uma cafeteria do espaço Itaú Multiplex, na Praia de Botafogo, em detrimento de nosso sítio tradicional, na Biblioteca Parque Estadual, em frente ao Campo de Santana, no centro do Rio.
Talvez pelo horário diverso, talvez pelo local alternativo, a maioria dos participantes de certames anteriores não pôde comparecer desta vez.  Presentes apenas o casal Renata Aquino & Eliseu Ferreira; Stella Rosemberg; Erick Massoto; Daniel Faleiro e eu.  A namorada de Daniel, Carol Montenegro apareceu já ao fim da parte oficial do evento e participou bastante do bate-papo animado que se seguiu, mas não da análise do romance Guerra do Velho (Aleph, 2016), de John Scalzi.
A narrativa desse romance é apresentada sob o ponto de vista de John Perry, um cidadão norte-americano sênior e viúvo de setenta e cinco anos num futuro mais ou menos distante em que a humanidade domina técnicas de navegação superlumial e já coloniza outros sistemas estelares há pelo menos dois séculos.  Ao cruzar essa idade limite, ele decide abdicar da cidadania terrestre, para se tornar um recruta das Forças Coloniais.  Para tanto, como parte da barganha, Perry recebe um corpo jovem repleto de aperfeiçoamentos genéticos e um implante neural autoconsciente, para ajudá-lo a combater guerreiros de potências alienígenas hostis que ameaçam a diáspora humana periferia galáctica afora.
Scalzi estabelece um diálogo explícito profícuo com os romances Tropas Estelares de Robert A. Heinlein; The Forever War de Joe Haldeman; e O Jogo do Exterminador de Orson Scott Card, além de um outro diálogo, mais sutil, com a noveleta “The Civilization Game” de Clifford D. Simak.



*     *      *

Em prol da pontualidade, dada a rarefação habitual dos ônibus da linha de conexão com o metrô nos fins de semana, fui obrigado a pegar um táxi para chegar ao Itaú Multiplex a tempo.  Fui o segundo a chegar, após Stella, que já se encontrava sentada à mesa de uma cafeteria em frente à livraria Blooks, na galeria do complexo e se deliciava com um drink quente e não alcoólico à base de café e chocolate, o Amor Perfeito, bebida tão atraente ao olfato e à visão, que resolvi pedir outro igual para mim antes mesmo de saber do que se tratava.  Não me arrependi.
Erick chegou pouco depois.  Conversa vai, conversa vem, descobri que Stella e Erick já se conheciam desde a adolescência e que foram apresentados um à outra por uma professora de inglês que possuíam em comum, embora nunca tenham frequentado as mesmas salas de aula.  A propósito, hoje em dia Stella é professora da Cultura Inglesa.
Renata chegou um pouco mais tarde e, em seguida, Daniel apareceu no pedaço.
Quitei meu Amor Perfeito e pedi uma taça do vinho tinto da casa antes de começarmos a destrinchar o romance do Scalzi.  Excepcionalmente, lembrei-me de anunciar minha participação numa das mesas-redondas do 1º Congresso da Associação Brasileira de Famílias Homoafetivas na próxima sexta-feira e também o lançamento para breve de meu livro de não ficção Vita Vinum Est! — História do Vinho no Mundo Romano.
*     *      *

Começamos nossa análise informal do romance assim que Daniel se sentou conosco à mesa da cafeteria.  Não obstante o número relativamente reduzido de debatedores, Guerra do Velho constituiu de longe a leitura que mais discussões suscitou — e discussões mais interessantes — de todas as sessões do Vórtice Fantástico de que participei desde julho do ano passado.
De minha parte, embora tenha adorado a narrativa de John Scalzi, tanto por sua verve e originalidade quanto pela temática de guerra estelar contra civilizações alienígenas, uma de minhas favoritas no domínio da ficção científica, ao concluir a leitura fiquei com uma série de dúvidas e impressões que cumpre registrar nesta crônica.

Alerta aos navegantes: os questionamentos a seguir estão coalhados de spoilers.  Se você ainda não leu o Guerra do Velho e não gosta de saber do fim da história antes de chegar à última página, sugiro que salte direto para o próximo trio de asteriscos.

Isto posto, a primeira questão é a seguinte: se a humanidade já possui tecnologias de registro de personalidade e de produção de clones, por que diabos os soldados não gozam de imortalidade?  Seria absurdamente fácil ressuscitá-los a partir de seus últimos registros, evitando que todas as experiências de combate que eles acumularam se perdessem à toa.  Foi exatamente este o passo lógico que decidimos implementar no universo ficcional Taikodom, cujas especificações (a famosa “bíblia”) foram estabelecidas um ano antes de John Scalzi publicar o primeiro romance da sequência Guerra do Velho.
Outra implicância relevante no âmbito da ficção científica hard: por que tanta ênfase em colonizar mundos bióticos?  Atavismo da Golden Age?  Qualquer civilização capaz de empreender viagens para outros sistemas estelares a velocidades acima da luz também deve ser capaz de construir habitats espaciais gigantescos com um pé nas costas.  Cada um desses habitats poderia abrigar centenas de milhares ou até mesmo milhões de habitantes.  Em seu conjunto, os habitats espaciais de determinado sistema estelar abrigariam bilhões de habitantes.  Afinal, uma vez conquistado o espaço, por que uma civilização madura desejaria regressar às velhas, sujas e inseguras biosferas planetárias?
No quesito motivação para engajar em conflitos interestelares contra espécies alienígenas, a própria noção de se travar guerra em âmbito estelar por recursos naturais não faz o mínimo sentido.  Afinal, civilizações avançadas a ponto de viajar entre as estrelas em velocidades superlumiais decerto dominariam técnicas de sintetizar qualquer recurso a partir de elementos simples, existentes em abundância universo afora.
Há ainda a questão da postura militarista, tipicamente norte-americana.  Ao retratar a humanidade em conflitos bélicos mais ou menos simultâneos com diversas civilizações alienígenas avançadas, pelo menos no que concerne a esse primeiro romance, Scalzi coloca os humanos como autênticos valentões da periferia galáctica.
No que diz respeito aos diálogos e pontes que o autor erige em direção a narrativas com temáticas semelhantes escritas por seus (nossos) antecessores, há os paralelismos mais explícitos e os mais sutis.
O diálogo mais óbvio, beirando a homenagem, é aquele estabelecido com o romance clássico de Robert A. Heinlein, Starship Troopers (1959), publicado entre nós como Tropas Estelares.  Tanto Heinlein quanto Scalzi definem a guerra contra potências alienígenas hostis como uma questão de sobrevivência para nossa espécie e, num nível ainda mais profundo, como uma questão de “nós contra eles”.  Heinlein deixa claro que o inimigo atacou primeiro.  Neste sentido, portanto, a humanidade estaria apenas reagindo aos ataques sofridos.  Já Scalzi, ao menos no romance que introduz seu universo ficcional, mostra os humanos como agressores contumazes.
The Forever War (1974) de Joe Haldeman é a antítese de Tropas Estelares e, portanto, de Guerra do Velho.  Aqui a humanidade se defronta com um único inimigo, os Tauranos.  Os soldados são selecionados entre os jovens mais capazes e inteligentes.  Em virtude dos efeitos relativísticos, do ponto de vista daqueles que permanecem no Sistema Solar, os militares humanos só regressam à Terra em seus períodos de licença uma vez a cada geração, fenômeno que os torna vítimas de choques culturais tão ou mais impressionantes do que as dificuldades que precisam enfrentar nos campos de batalha.
O Jogo do Exterminador (1985)[1] de Orson Scott Card dialoga com o clássico de Heinlein, mas inova ao propor uma guerra contra alienígenas insetoides hostis comandada por crianças geniais a partir de ambientes simulados.
Guerra do Velho interage com os três romances acima, mais intensamente com Tropas Estelares e O Jogo do Exterminador, ao propor conflitos estelares travados por cidadãos idosos transformados em supersoldados e também por crianças em corpos de adultos transformados em super-supersoldados (a famosa Brigada Fantasma), abordagem que suscita uma questão ética apavorante, de forma bem mais contundente e plausível do que a mostrada por Card em seu romance.
Cumpre mencionar ainda que a estratégia sábia exercitada pela humanidade no universo ficcional de Guerra do Velho, de manter as humanidades terrestre e solariana intocadas e o máximo possível afastadas dos conflitos estelares que grassam na periferia galáctica, como uma espécie de reserva de segurança para a espécie, já havia sido adotada na noveleta “The Civilization Game” (1958) de Clifford D. Simak.
*     *      *

Eliseu chegou bem em meio ao debate sobre o Guerra do Velho e as comparações com os demais romances citados acima.  Mas ele e Renata não ficaram muito tempo, pois saíram para assistir uma peça de teatro.  Com cerca de 60% do romance lido, Renata se confessou “não muito empolgada” pelo texto de Scalzi, cujos personagens ela julgou pouco profundos.
Já no início do debate, Daniel nos havia indagado se nutríamos alguma restrição contra narrativas em estilo supostamente cinematográfico, como é o caso do exercitado em Guerra do Velho.  Todos os presentes afirmaram não ver grandes problemas nesta opção estratégica autoral.
Após a partida do casal, Carol chegou ao Itaú Multiplex e sentou conosco.  A partir daí, o papo passou da análise do romance em si para — sobretudo, mas não só — literatura e cinema fantásticos em geral.  Conversamos um bocado sobre a sexta temporada da série Game of Thrones, baseada no U.F. Canção de Gelo e Fogo, do George R.R. Martin, cujo último episódio será exibido amanhã à noite.  Falei do spoiler sobre a morte de Tommen Baratheon, vamos ver se rola.  Daniel me contou sobre um projeto de universo ficcional que ele anda lucubrando, envolvendo híbridos humanos gengenheirados e outros bichos mais.  Ainda neste tópico, ele me incentivou a comparecer à exposição Comciência, da Patricia Piccinini, atualmente em seus últimos dias no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro da cidade.  Também falamos sobre pais & filhos, vida em família, práticas alimentares e preferências nutricionais, com ênfase particular às carnes bem temperadas, aos caldos verdes e aos cremes de batata-baroa.
Como o papo estava dos melhores, só saímos da galeria por volta das 20h00.  Uma das melhores reuniões até hoje.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 25 de junho de 2016 (sábado).





Participantes:
Carol Montenegro
Daniel Faleiro
Eliseu Ferreira
Erick Massoto
Gerson Lodi-Ribeiro
Renata Aquino
Stella Rosemberg




[1].  Esse romance é a expansão da noveleta homônima, “O Jogo do Exterminador” (1977), publicada em português na edição nº 14 da versão brasileira da revista Asimov’s.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A Noite dos Três Gersons

201604232359P7 — 20.379 D.V.

“Nunca antes na história desta agremiação, tantos Gersons se reuniram num só evento.” (Presidente Bill Clinton Davisson)

Aproveitamos o ensejo da vinda do presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica, Clinton Davison, ao Rio de Janeiro, para organizarmos um encontro informal nesta noite de sábado no restaurante Culinare (antigo Estação Gourmet).
Cheguei um pouco atrasado no Culinare, em relação ao horário marcado de 18h00.  Ao entrar no restaurante, encontrei por lá os amigos Eduardo Torres, Ricardo França e Jorge Pereira, além do Clinton e de Leyla Mattar, amiga do nosso presidente.  Pouco depois, chegavam Gerson Couto e Mariana “Belly” Gouveia.  Mais tarde, chegou Gerson Machado de Avillez, um sócio do CLFC que eu até então só conhecia de bate-papos na lista de discussão do CLFC.  Foi a primeira vez que nosso Triunvirato de Gersons se encontrou num mesmo evento.  Para que o leitor tenha ideia da dimensão exata da efeméride, basta frisar que um terço dos presentes à mesa eram Gersons.
*     *      *

Em pleno feriadão de Corpus Christi, em meio a um outono onde já não chove há pelo menos dez dias na cidade, meros dois dias depois do desabamento da Ciclovia Tim Maia, fizemos nossa primeira reunião carioca de 2016, ou, ao menos, a primeira reunião deste ano que este cronista participou.
Mal sentei à mesa e fui brindado com a informação de que o pessoal da conexão Planetário da Gávea-JediCon convidou o CLFC para participar da organização da comemoração carioca do jubileu de ouro da franquia Star Trek.  Eduardo Torres e eu sugerimos o nome do sócio Luiz Felipe Vasques para coordenar a iniciativa em nome do clube.  A indicação foi aceita de pronto pelo presidente.  Como Felipe havia dito que devia comparecer ao encontro, Clinton afirmou que faria o convite pessoalmente.  Julguei melhor verificar a questão e confirmei por SMS que Felipe desistira de ir.  Para adiantar o serviço, transmiti-lhe pelo mesmo canal a notícia de que ele havia sido escalado como voluntário para a galharda missão.  Aflito e orgulhoso, Felipe me ligou, mas quem atendeu foi o Clinton, pois àquele instante eu estava me servindo no buffet do restaurante.  Assim, o presidente pôde nomear o bravo cavaleiro Luiz Felipe Vasques como coordenador plenipotenciário do clube para o evento comemorativo.  Eu e Eduardo nos oferecemos como voluntários para auxiliar Felipe no que se fizer necessário.

Nossa mesa - Panorâmica 1.

Nossa mesa - Panorâmica 2.



Clinton informou que a editoria da antologia comemorativa do CLFC, 30 Voltas ao Redor do Sol, está a cargo do amigo escritor Fábio Fernandes.  Também conversamos sobre uma nova antologia de ficção científica da Draco para a qual nós dois fomos convidados a submeter trabalhos.
Já não via a Belly há um bocado de tempo.  Tenho a impressão de que não conversávamos desde o lançamento carioca do meu romance Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014), durante a Primavera dos Livros do ano retrasado.  Ela contou que finalmente começou a lê-lo e que está gostando.  Falamos sobre política e governança em geral e corrupção em particular.  Abordamos en passant a polêmica recente nas redes sociais, “Bela, Recatada e do Lar”, envolvendo Marcela Temer e espoletada por uma matéria publicada na revista Veja desta semana.  Belly falou das mudanças em sua vida profissional e eu lhe contei da minha participação na seção carioca do clube de leitura de literatura FC&F, Vórtice Fantástico, e ela se mostrou interessada em participar.  Contei também da perspectiva da publicação de meu primeiro livro de não ficção, Cenários de História Alternativa e ela se mostrou interessada comparecer ao lançamento e adquirir a versão em e-book ou a versão impressa do trabalho.
Por volta das 20h50, Clinton e Leyla partiram de táxi para a rodoviária a fim de embarcar no ônibus na viagem de volta para Juiz de Fora.  Pouco mais tarde, os outros dois Gersons tiveram que nos deixar, mas não sem antes posar para uma pequena sessão de fotos para registrar a efeméride.  Jorge e Belly resistiram mais um pouco, saindo por volta das 22h00.


Triunvirato de Gersons: Couto, Machado de Avillez, Lodi-Ribeiro.


Edu Torres, Ricardo França e eu resistimos até às 22h40, conversando sobre as perspectivas futuras de aposentadoria, a crise advinda do aparelhamento da Petrobras e até, um pouco, sobre ficção científica.
Aliás, este foi um encontro em que, pelo menos no meu lado da mesa, falou-se relativamente pouco sobre ficção científica e gêneros correlatos.  Mesmo assim, foi uma boa oportunidade de rever e conversar com os amigos.
A ausência mais sentida e lamentada da noite foi a de nosso amigo Max Mallmann, que havia dado a entender que compareceria ao evento.L  Bem, fica para a próxima.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 23 de abril de 2016 (sábado).




Participantes:
Clinton Davisson
Eduardo Torres
Gerson Couto
Gerson Lodi-Ribeiro
Gerson Machado de Avillez
Jorge Pereira
Leyla Mattar
Mariana “Belly” Gouveia
Ricardo França


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Primavera dos Livros 2015

201512052359O7  —  20.238 D.V.

“Existe um limite para o número de tretas que um sujeito pode suportar.”
(Luiz Felipe Vasques)

Dia 1 (Sexta-feira – data estelar: 20151204O6)
Saí do trabalho mais cedo ontem à tarde para comparecer à Primavera dos Livros 2015, evento literário & cultural que começou anteontem (quinta-feira) e que se estenderá até amanhã (domingo) nos jardins do Palácio do Catete.
Fui de metrô da estação Estácio até a do Catete, colada ao palácio.  Leitura de bordo: livro de ficção científica que terei a honra de prefaciar.  Apesar da tarde nublada, prenunciando chuva, que acabou não caindo, as aleias dos jardins ocupadas pelos estandes das editoras participantes da Primavera encontram-se devidamente protegidas da chuva por coberturas de plástico improvisadas pelos organizadores do evento.
Às 16h30 chegava ao estande nº 24, ocupado pela Editora Draco e comandado pelo dinâmico e simpático Luiz Akira.
*     *     *

Chegando ao estande da Draco, deparei-me com Ana Lúcia Merege e com uma figura legendária da história incipiente da ficção científica brasileira, José dos Santos Fernandes, um dos primeiros amigos que fiz em 1987, quando ingressei para o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).  Já não via o Zé desde o lançamento da antologia comemorativa Vinte Voltas ao Redor do Sol em dezembro de 2005.  Aproveitamos a oportunidade para colocar o papo em dia.  Zé Fernandes me descreveu em pormenores hilários as aventuras de seu filho, Francisco, em suas viagens mundo afora para os destinos mais improváveis e inusitados, dentre os quais a estada numa cidadezinha russa no auge do inverno siberiano.  Com 23 anos, Francisco está cursando o quarto ano de Medicina e, segundo o Zé, pretende se tornar oncologista.  Ao longo de nosso papo, um par de gansos começou a entoar grasnidos histéricos que nos fez lembrar da guarnição de gansos que vigiava o forte romano durante a invasão de Breno, o Gaulês e que teria bradado o alerta de que os invasores estariam prestes a tomar a colina do Capitólio.
Pouco depois chegava meu amigo de infância, Celso Pinheiro Mesquita, que eu já não via desde meados de julho.  Conversamos bastante sobre viagens em geral e turismo enogastronômico em particular.  Aventamos a hipótese de viajar para as Serras Gaúchas durante os feriados momescos, para passarmos um carnaval enológico em grande estilo por lá.
Em seguida chegou o amigo Luiz Felipe Vasques, integrando-se ao nosso bate-papo.  Minha amiga do Vórtice Fantástico, Stella Rosemberg e seu marido Gabriel Kirin deram uma passada rápida pelo estande da Draco, mas não houve oportunidade de conversar com eles.

José dos Santos Fernandes, Celso Pinheiro Mesquita, Luiz Felipe Vasques.

GL-R, José Fernandes, Celso Mesquita.



Celso adquiriu um exemplar autografado de meu romance, Estranhos no Paraíso (Draco, 2015).  José Fernandes adquiriu, além desse livro, os três volumes da Space Opera, antologias organizadas para a Draco por Hugo Vera & Larissa Caruso.
Conversamos, eu, Celso, Felipe e Zé Fernandes até às 19h30 sobre organização de antologias, existência de civilizações extraterrestres, vida alienígena baseada em silício e jequitibás gigantes.  Quando comentei ter avistado um jequitibá-rosa gigantesco com mil anos de idade no Parque Estadual dos Três Picos, em Cachoeiras de Macacu, Zé contou ter visitado o jequitibá-rosa que é considerado a árvore mais antiga do Brasil, com mais de três mil anos de idade, no Parque Estadual Vassununga, no interior de São Paulo.  Através de pesquisas internéticas, confirmei que os dois exemplares são praticamente da mesma altura (o mais jovem, de Cachoeiras de Macacu é um metro mais alto), porém, o jovenzinho é mais robusto, com dois metros a mais de diâmetro.  De todo modo, preciso visitar esse parque paulista, pois lá existe uma autêntica floresta de jequitibás gigantes.[1]
Depois de autografar os livros de meus amigos e me despedir deles, tirei algumas fotos do estande em companhia da Ana, do Felipe e do Luiz Akira.  Por volta das 20h00, Felipe escoltou a Ana até a estação do Catete, pois ela ainda regressaria para Niterói.

Estande da Draco: Ana Lúcia Merege e Luiz Akira.


Travei contato com José Fontenele, fã de ficção científica que adquiriu um exemplar do Estranhos no Paraíso para resenhar num blogue de literatura.  Responsável pelo segmento de literatura fantástica do blogue, ele resolveu fugir um pouco da mesmice de Asimov, Bradbury, Clarke, Dick e Heinlein, dando chance também à ficção científica lusófona, no caso, aquela produzida este escriba que ora vos digita.
Também conversei durante bastante tempo com um mineiro, Ricardo Rodrigues, que acabou adquirindo um exemplar do Estranhos no Paraíso e um do Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).
Felipe me descreveu o enredo de um RPG de ficção científica em que consciências artificiais à la Skynet destroem a civilização global terrestre, mas a humanidade logra sobreviver no espaço solariano numa narrativa superficialmente semelhante à primeira fase daquela que concebi para o universo ficcional Taikodom.
Por volta das 20h00 passou uma banda carnavalesca em frente ao estande 24 com músicos tocando marchinhas com seus instrumentos, mulheres evoluindo de biquínis e homens dançando vestidos de mulher.  Eu e Felipe nos olhamos, indagando-nos onde é que foi parar o Natal.
Enfim, às 21h00, eu e Felipe ajudamos Luiz a fechar o estande da Draco e seguimos juntos para o exterior do Palácio do Catete.  Despedimo-nos dele na calçada e embarcamos na estação de metrô.  Saltei na estação Botafogo e tomei o ônibus de integração para casa.
Ao chegar em casa às 22h00, fui agradavelmente surpreendido pelo saboroso risoto de alho-poró com linguiça preparado pelas meninas, que guardaram um prato para mim.  Pitéu delicioso degustado em companhia de uma garrafa de Boscato Cabernet Franc 2013.  Fecho de ouro para um dia como poucos.

Dia 2 (Sábado – data estelar: 20151205O7)
Nesta tarde ensolarada de sábado, eu, Cláudia e meu sogro Carlos seguimos de táxi até o Palácio do Catete, para a segunda visita ao estande da Draco na Primavera dos Livros 2015.
Ao chegar lá, encontramos Ricardo França, Ana Lúcia Merege e Luiz Akira no estande nº 24.  Como eu próprio, França foi aluno de meu sogro na Engenharia Eletrônica da UFRJ no Fundão.  Os dois logo entabularam um bate-papo animado sobre os tempos, as aulas, os professores e as provas do Departamento de Eletrônica.

GL-R & Cláudia, Carlos Peres Quevedo, Ricardo França.



Enquanto Cláudia e seu pai exploravam outros estandes da Primavera, recebi a visita de Silas Ferreira, amigo e ex-chefe na Secretaria Municipal de Fazenda.  Morador do Catete desde sempre, Silas falou um pouco sobre a história desse bairro que abrigou por coisa de seis décadas a sede de governo do Brasil.  Também comentou que os jardins do palácio estão com uma nova iluminação noturna.  Ele torce para que essas luzes verdes que observa da janela de seu apartamento constituam iluminação permanente e não meramente natalina.

Silas Ferreira e GL-R.


O indefectível Luiz Felipe Vasques apareceu por volta das 15h00 para bater papo e dar uma força para os amigos draconianos.
Outro amigo que eu não via há muito, muito tempo e que apareceu na Primavera dos Livros foi Nuno Caminada, acompanhado pela esposa Christiane e o filho de cinco anos, Daniel.  Nuno prestou-nos grande auxílio quando eu e Phillip Antoniadis preparamos nosso projeto de pesquisa ao fim do curso de Astronomia em 1991.  Conversamos um bocado sobre ficção científica, nossas carreiras (ele também está trabalhando para a Prefeitura), amigos em comum e a vida em geral.  Nuno e Christiane não mudaram nada desde a última vez que nos vimos, exceto pelo fato de que agora são pais do ativo e esperto Daniel.  Combinamos marcar um jantar para as próximas semanas, provavelmente, no início de 2016.

GL-R e Nuno Caminada.


Outro casal que deu o ar de sua graça no estande da Draco foi Osmarco Valladão & Lila Montezuma.  Por ocasião da Bienal do Livro não consegui encontrá-los, embora eles tenham comparecido duas vezes ao estande da editora.  Desta vez pudemos colocar os papos em dia.  Falamos sobre escrever ficção científica hard e ficção científica soft; e sobre romances, filmes e séries do gênero.  Osmarco elogiou muitíssimo a série Black Mirror, que também parece ter siderado os garotos do Vórtice Fantástico.  Preciso dar uma conferida na Netflix!

Luiz Felipe, Osmarco Valladão, Lila Montezuma, Ricardo França.


Cirilo S. Lemos e seu primo Diego Miranda apareceram lá no estande às 16h00, horário de pico para as vendas da Draco.  Quando o pequeno estande se viu sitiado por mais de quinze clientes em potencial, França, Felipe e Cirilo passaram literalmente para o outro lado do guichê a fim de dar uma mãozinha para o sempre bem-humorado Luiz Akira.  Diego contou que também trabalha na Globo e, mais, lá no Projac.

Estande da Draco bombando!

Luiz Akira: Ninja em ação.

Luiz Felipe, Cirilo Lemos, Ana Merege, GL-R, Osmarco & Lila, Ricardo França.


Cláudia e seu pai aproveitaram o ensejo para visitar o Museu da República (instalado no prédio principal do palácio em si) e se integrar numa sessão vespertina de serestas que se desenrolava nos bancos dos jardins do palácio.  Por volta das 18h00 convidei os dois para tomar algo na cafeteria dos jardins.  No caminho rumo à cafeteria, encontramos Nuno e sua família.

Cláudia e Carlos Quevedo. Ao fundo, primeira
central elétrica instalada no Brasil.


Após a parada na cafeteria, passei no estande nº 24 para me despedir dos amigos.  Encontrei o amigo Daniel Russell Ribas em plenos jardins e aproveitei o ensejo para autografar seu exemplar de Estranhos no Paraíso.  Aliás, Daniel logrou adquirir o último exemplar do romance disponível no estande.
Às 19h10 tomamos um táxi para casa.  Após uma breve parada técnica para selecionar os vinhos que levaríamos conosco para a festinha de Natal do pessoal do curso de italiano, seguimos a pé até o Heliponto da Lagoa, onde nosso amigo e anfitrião Luis Munhoz, a namorada Monique e os demais amici do curso já nos aguardavam para o evento animado que se prolongou, desta vez praticamente em petit committee, até às 02h20.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 05 de dezembro de 2015 (sábado).



Participantes:
Ana Lúcia Merege
Carlos Peres Quevedo
Celso Pinheiro Mesquita
Christiane Caminada
Cirilo S. Lemos
Cláudia Quevedo Lodi
Daniel Caminada
Daniel Russell Ribas
Diego Miranda
Gabriel Kirin
Gerson Lodi-Ribeiro
José dos Santos Fernandes
José Fontenele
Lila Montezuma
Luiz Akira
Luiz Felipe Vasques
Nuno Caminada
Osmarco Valladão
Ricardo França
Ricardo Rodrigues
Silas Ferreira
Stella Rosemberg
Tomaz Adour





[1].  Parque Estadual de Vassununga: http://www.ambiente.sp.gov.br/parque-vassununga/

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Argos 2015
na JediCon do Planetário da Gávea

201511292359O1  —  20.232 D.V.

“I know where I came from... but where did all you zombies come from?”
(“All You Zombies”, Robert A. Heinlein)

“Você será um principiante em viagens no tempo enquanto não voltar ao passado para transar e engravidar uma antepassada sua.”
(Frase de viajante temporal do romance Up the Line, de Robert Silverberg)

Dia 1 (Sábado – data estelar: 20151128O7)
Manhã ensolarada de sábado neste fim de primavera carioca.  Com uma participação em mesa-redonda agendada na JediCon por Clinton Davison, presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), e eu, inadvertida e infelizmente, preso em casa por conta da instalação de um fogão high-tech e um ar-condicionado novos, com direito a mudança de tomada de 127 para 220 volts, instalação de disjuntor, dois eletricistas e um técnico da Brastemp aboletados em nossa cozinha, grosso modo, faina careca das 08h00 às 17h00.
De qualquer forma, segundo relato do amigo Eduardo Torres, a mesa-redonda transcorreu numa boa, embora tenha sido aberta às 12h30, em vez de no horário previsto de 10h00, como combinado inicialmente.  Os participantes foram Clinton Davison; Carlos Orsi Martinho; Fábio Fernandes; Alexey Dodsworth; Ricardo França; João Beraldo; Saulo Adami.
No meu lado do front, acabou dando na justa para chegar ao restaurante Estação Gourmet (o nome do estabelecimento não é mais esse, mas esqueci de registrar a nova designação) às 19h00.  Ao desembarcar do ônibus de integração do metrô na Estação Botafogo, encontrei com o amigo Naelton Araujo, meu veterano no curso de Astronomia no Observatório do Valongo e atual responsável pela área de divulgação científica do Planetário da Gávea.  Ele falou que, infelizmente, não iria comparecer à JediCon no dia seguinte.
Chegando ao restaurante, encontrei em nossa mesa tradicional, os velhos amigos Eduardo Torres e Max Mallmann.  Senti-me bastante feliz e emocionado com a notícia de que Max está melhor e reagindo bem ao tratamento.  Bola para frente!
Vinda de uma exposição de artes em Botafogo, Cláudia chegou pouco depois.  Em seguida apareceu o Ricardo França.  Carlos Orsi Martinho chegou logo após, escoltado por Luiz Felipe Vasques, na qualidade de guia nativo.  Felipe posou com seu new look: cabelo curto e praticamente sem barba.  Já Clinton Davison, seguinte na ordem de chegada, materializou-se no salão trajado (fantasiado?) de carioca típico: bermudas, camiseta e sandálias havaianas.  O último a chegar foi o amigo Daniel Russel Ribas, com look & aparência normal, conquanto algo abatido.
Enquanto só estávamos eu, Max e Edu, esse último discorreu sobre as falas dos participantes da mesa-redonda.  Comentou que Alexey apresentou o astrofísico Gustavo F. Porto de Mello, presente na plateia.  Como Naelton, Gustavo também foi meu veterano na Astronomia.  Alexey homenageia Gustavo transformando-o em personagem de seu romance Dezoito de Escorpião.  Tanto na FC quanto na vida real, Gustavo descobriu que a anã amarela 18 Scorpii (HR 6060), distante cerca de quarenta seis anos-luz do Sistema Solar, é a estrela mais semelhante ao nosso Sol que se conhece.  Mais detalhes sobre o romance abaixo.  Quanto à estrela em si, confira em http://www.solstation.com/stars2/18sco.htm
Mais tarde, na presença dos demais, Eduardo também falou sobre a participação de Saulo Adami, maior expert brasileiro sobre o Planeta dos Macacos e provavelmente um dos maiores colecionadores mundiais de memorabilia desse universo ficcional.  Mais uma vez defendi a tese execrada de que a versão de Tim Burton (2001) é a mais consistente em termos de argumentação científica, evolução dos primatas, além de ser a mais fiel ao romance homônimo do autor francês Pierre Boulle, que deu origem ao U.F.  Aproveitei para abordar certas nuances do romance ausentes em quaisquer dos filmes e seriados televisivos.  Alguém lembrou que os macacos do filme original concorreram ao Oscar de maquiagem contra os australopitecos exibidos na primeira parte do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço.  Conta a lenda que os macacos do Planeta ganharam o Oscar pelo fato de que o comitê julgador da Academia de Hollywood considerou os primatas do filme de Kubrick autênticos e não meros atores fantasiados.
Também discutimos amiúde as chances e nossas opiniões pessoais sobre os trabalhos finalistas nas diversas categorias do Argos.  Felipe e Clinton divulgaram que a antologia Super-Heróis (Draco, 2013), que eu e o primeiro organizamos, foi bem votada, embora tenha sido considerada obviamente inelegível, pela data de lançamento.  Neste caso em particular, creio que o fator principal de indução ao erro tenha sido a lista do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica que o próprio CLFC divulgou por e-mail, pois a lista relacionava nossa antologia como tendo sido publicada em 2014.
O ponto alto do papo dessa noite foi sem dúvida nosso colóquio informal sobre narrativas de viagens no tempo.  Como apaixonado e estudioso do assunto, Eduardo Torres discorreu longamente sobre o romance de Robert Silverberg Up the Line (Ballantine, 1969), onde o protagonista revela seu cotidiano, peripécias e traquinagens como agente de uma empresa de turismo temporal.  Edu lamentou que nunca se tenha cogitado produzir um filme de ficção científica inspirado nesse romance.  Quando chegamos ao tópico dos loops temporais fechados, lembramo-nos com prazer dos enredos memoráveis do conto “12:01 PM” do Richard A. Lupoff[1] e de sua versão televisiva, bem como de seu análogo nacional, o conto “Estes 15 Minutos” de Carlos Orsi Martinho.[2]  Em virtude do risco elevado de spoilers, não detalharei essas duas narrativas, embora as recomende com o máximo empenho.  Não resisti a tecer elogios ao romance de Audrey Niffenegger, A Mulher do Viajante no Tempo (Objetiva, 2009), também com versão cinematográfica (cujo título, algo piegas, em português é Te Amarei para Sempre) e, em minha opinião a narrativa mais pungente do drama pessoal e existencial de um viajante temporal.  Claro que não poderíamos deixar de comentar e babar sobre o magnífico conto clássico “All You Zombies”, de Robert A. Heinlein, a narrativa curta mais intrincada e bem urdida da história do gênero.  Ainda mais que a bela versão cinematográfica desse conto, O Predestinado (2014), foi lançada na TV a cabo brasileira poucos meses atrás.
No quesito imortais que convivem conosco e contemplam a passagem da história humana desde o início dos tempos até o presente, comparamos favoravelmente a narrativa do romance Zigurate (Rocco, 2003), de Max Mallmann, com a do filme Hancock (Columbia, 2008).
Ribas indagou sobre a perspectiva de lançamento da antologia Dinossauros, que organizei para a Draco em 2014.  Adiantei que o Erick havia comentado comigo durante a Bienal do Livro: a publicação da edição impressa está prevista para 2016.
Quando estávamos prestes a pedir a conta, desabou uma chuvarada violenta e meteorologicamente imprevista, pois os sites de previsão indicaram chances nulas de ocorrência de chuva na cidade.  Mesmo assim, após certa dificuldade, Cláudia logrou obter um táxi pelo aplicativo do celular e conseguimos voltar para casa secos e incólumes.

Ricardo França, Carlos Orsi, Edu Torres, Clinton Davison,
Daniel Ribas, Felipe Vasques, Max Mallmann e GL-R.


Carlos Orsi (Martinho), Eduardo Torres e Clinton Davison.

GL-R & Cláudia Quevedo Lodi.



Dia 2 (Domingo – data estelar: 20151129O1)
Acordamos cedo para caminhar no Jardim Botânico.  Ao regressar do passeio, depois de uma hora de lei na ergométrica, com a leitura de mais capítulo de Psychology Gone Wrong: The Dark Side of Science and Therapy (BrownWalker Press, 2015), de Tomasz Witkowski & Maciej Zatonski, tomei banho, me vesti e segui de ônibus da integração do metrô até o Planetário da Gávea.
Junto ao portão de entrada, após certa hesitação funcional do pessoal responsável pela identificação, consegui minha pulseira de participante, evitando assim a fila quilométrica que já serpenteava calçada do planetário abaixo às 11h20.  A obtenção do crachá ficaria para mais tarde.
Ao subir a rampa do estabelecimento para o segundo piso, encontrei Carlos Orsi Martinho e Ricardo França.  Ficamos conversando por cerca de meia hora sobre idiomas e linguística.  Distávamos a cerca de dez metros da sala de imprensa, onde Clinton Davison e Jorge Luiz Calife concediam entrevistas a dois sites de divulgação.
Dali, após reunirmos forças com João Marcelo Beraldo, Jorge Pereira, Eduardo Torres e seu filho Iuri (já da altura do pai aos treze anos), e Lorena França, filha do Ricardo, ingressamos na Cúpula Carl Sagan, onde se realizaria a cerimônia de entrega do Prêmio Argos 2015.  Pouco antes de entrar, obtive meu crachá de convidado.
Dentro da cúpula, encontramos os amigos Ana Cristina Rodrigues, Octavio Aragão, Fábio Fernandes e Max Mallmann; esse último, acompanhado pela esposa, a escritora e poeta Adriana Lunardi.  Antes do início da cerimônia, Octavio me contou sobre sua crise de vesícula que o deixou internado na UTI por alguns dias, culminando na extirpação do órgão insidioso e no consequente restabelecimento, ainda em curso, de nosso amigo.

Eduardo Torres, Iuri Torres e Jorge Pereira.

Octavio Aragão, Ricardo França e Iuri,

Adriana Lunardi, Ana Cristina Rodrigues e Max Mallmann.

Concepção artística do Troféu Argos projetado
no telão da Cúpula Carl Sagan.


Por volta das 13h00, diante de uma platéia de cerca de cem pessoas, na qualidade de presidente do CLFC, Clinton deu início aos trabalhos da cerimônia de entrega das premiações.  Após um discurso breve em que abordou um pouco da história e do propósito do clube em geral e do Argos em particular, ele me convocou ao palco para a entrega do Argos Especial para Jorge Luiz Calife.  Falei da importância do Argos Especial como reconhecimento ao homenageado pelo conjunto da obra e por sua importância para a literatura fantástica nacional.  Citei os três romances da trilogia que constitui a obra magna, pela qual Calife é mais conhecido: Padrão de Contato (Nova Fronteira, 1985); Horizonte de Eventos (idem, 1986); e Linha Terminal (GRD, 1991), lembrando ainda que o autor é considerado o decano da ficção científica hard nacional.[3]  Em seu discurso de agradecimento, Calife manifestou sua alegria por ter sido agraciado com o Argos Especial.

Fala inicial de Mr. President Bill Clinton Davison.

Cerimônia do Argos 2015 na JediCon,
Cúpula Carl Sagan do Planetário da Gávea.

Argos Especial 2015.

Discurso de agradecimento de Jorge Luiz Calife.


Clinton retomou a palavra e explicou à plateia que a cerimônia de premiação do Argos foi inspirada no Oscar, atribuído pela Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood.  Inclusive, o vencedor de cada uma das três categorias é mantido em sigilo absoluto até o anúncio proferido pelo sócio sênior convidado/convocado para a tarefa.
Em seguida, o presidente convocou o sócio Eduardo Torres, que exerceu a presidência do CLFC no biênio 2009-2011, para a entrega do Argos 2015 na categoria estreante Melhor Antologia.  Eduardo procedeu à leitura dos trabalhos finalistas, projetados na tela côncava da cúpula.  Em seguida, recebeu das mãos do presidente o envelope selado com o nome da antologia vencedora.  Aberto o mesmo, Eduardo anunciou Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (Draco, 2014), organizada por Fábio Fernandes e Romeu Martins.  Fábio Fernandes desceu ao palco para receber o troféu do Argos.  Emocionado, Fábio proferiu seu discurso de agradecimento na presença de seus pais e também de seu filho.

Eduardo Torres entrega o Argos 2015, Categoria Melhor Antologia.

Coantologista Fábio Fernandes recebe o Argos 2015 por
Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk.

Discurso de agradecimento de Fábio Fernandes.


Dando prosseguimento à cerimônia, Clinton convocou o escritor e professor Octavio Aragão ao palco para, como vencedor do Argos 2014 na categoria Ficção Curta, proceder à entrega da premiação dessa categoria neste ano.  Como Eduardo antes ele, Octavio leu os títulos dos contos e noveletas concorrentes e os nomes de seus autores.  Em seguida, abriu o envelope e anunciou o vencedor: “Clitoridectomia” (Draco, e-book, 2014), de Carlos Orsi Martinho.  O autor desceu ao palco para seu discurso de agradecimento, comentando que era sua segunda vitória nesta categoria do Argos.  A primeira premiação deu-se no Argos 2013, com o conto “No Vácuo Você Pode Ouvir o Espaço Gritar”.

Octavio Aragão entrega o Argos 2015, categoria Melhor Ficção Curta.

Carlos Orsi recebe o Argos 2015 por "Clitoridectomia".


Finalmente, Clinton convocou ao palco Ana Cristina Rodrigues, que exerceu a presidência do CLFC no biênio 2007-2009, para a entrega do Argos 2015 na categoria Melhor Romance.  Ana leu os títulos e autores dos trabalhos finalistas e, uma vez aberto o envelope, anunciou como vencedor Dezoito de Escorpião (Novo Século, 2014), de Alexey Dodsworth.[4]  O autor desceu ao palco para proferir seu discurso de agradecimento e revelou estar prestes a publicar outro romance de ficção científica em 2016, O Esplendor, agora pela editora Draco.

Ana Cristina Rodrigues entrega o Argos 2015, categoria Melhor Romance.

Alexey Dodsworth recebe o Argos 2015 por Dezoito de Escorpião.


Encerrada a parte formal da cerimônia, reunimos os vencedores das três categorias e o detentor do Argos Especial no palco da cúpula para uma sessão de fotografias, que se prolongou até que os organizadores da JediCon nos convidaram gentilmente a evacuar o recinto de modo a facultar a entrada do público para a próxima atração.

Vencedores do Argos 2015: Alexey, Carlos Orsi, Calife e Fábio Fernandes

Agraciados & Mr. President.


Reunimo-nos junto à entrada da Carl Sagan para combinar um almoça de confraternização entre aqueles que iriam permanecer no evento, bem como para se despedir daqueles que não iriam.  Infelizmente, ainda convalescente, Octavio Aragão não pôde almoçar conosco.  Fábio Fernandes se despediu de nós ali mesmo, pois iria almoçar com a família, que comparecera para prestigiá-lo (e congratulá-lo!) na cerimônia do Argos.  Jorge Luiz Calife desapareceu sem que pudéssemos contactá-lo.
Enquanto procurávamos alguns retardatários, dei um pulo ao estande de vendas do CLFC para convidar João Beraldo e Alexey Dodsworth para o almoço.  Encontrei o fã Alberto Oliveira no justo instante em que coletava um autógrafo do exemplar do romance Império de Diamante (Draco, 2015), do Beraldo.  Eu e Alberto acompanhamos Beraldo até a Sala de Imprensa, na esperança de que ele pudesse deixar seus livros ali durante o almoço, ideia vetada in abruptu pela Assessora de Imprensa do planetário.  Dali seguimos até a Sala de Cosplay, no terceiro piso do planetário: nova negativa.  Enfim, numa terceira sala, logramos armazenar os dezoito exemplares e, mesmo assim, a título de favor pessoal prestado pela responsável pela guarda de objetos.
Quando eu, Beraldo e Alberto — após nadar contra a maré humana naquele genuíno mar de fãs a paisana ou fantasiados de stormtroopers, Princesas Leias, Yodas, Darth Vaders, Luke Skywalkers e demais Cavaleiros Jedis — retornamos ao piso térreo, o povo já havia partido para o restaurante combinado.  Felizmente, sabíamos o rumo que haviam tomado e os reencontramos pelo meio do caminho em plena Marquês de São Vicente.  Dali seguimos os dezesseis até a Praça Santos Dumont.  A ideia inicial era almoçar no Bar e Restaurante Hipódromo (uma vez que seria inconcebível encontrar lugar para dezesseis pessoas às 14h30 de sábado no Braseiro da Gávea).  No entanto, o próprio Hipódromo também estava lotado.  Ante as circunstâncias adversas, empreendemos retirada estratégica até o Garota da Gávea, onde enfim obtivemos uma mesa capaz de abrigar nossa tribo.  Sentei em frente ao Edu Torres, com Clinton à minha esquerda e Max Mallmann à minha direita.  Ao longo do repasto, conversei basicamente com esses três e também com o Martinho, a Ana Cris e o Beraldo, com quem dividi uma mais do que generosa picanha na chapa com arroz à piemontesa, ainda guarnecida por uma porção de batatas fritas e uma farofa de ovo muito gostosa.  Nosso prato foi o último da mesa a chegar, mas, definitivamente, não perdemos por esperar.  Reguei esse ágape com três taças de um tinto português não identificado, mas bastante potável, e quatro garrafinhas de água com gás.

Almoço: Carlos Orsi, Jorge Pereira, Ana Cristina,
Miguel Rodriges e Max Mallmann.

Almoço: Clinton Davison, João Beraldo e Eduardo Torres.

Almoço: Alberto Oliveira, Ricardo França e Lorena França.

Almoço: nossa mesa. Em primeiro plano, Alexey Dodsworth e amigos.



Durante o almoço, eu, Eduardo, Beraldo e Clinton conversamos sobre as perspectivas de se obter um CNPJ para o CLFC.  No quesito alcoólico, falei e ouvi mais de cerveja do que de vinho.  Os papos entrecruzados sobre as polêmicas recentes na lista de discussão do CLFC me levaram a apresentar um breve histórico sobre a criação da dita lista.  Clinton revelou que a página do CLFC no Facebook já goza de mais de sete mil assinantes, por certo uma maioria deveras silenciosa, pois são (bem) menos de cem pessoas que normalmente se manifestam ali.  Para diversão dos presentes, eu e Martinho relembramos vários episódios pitorescos ocorridos em convenções que freqüentamos na década de 1990 da capital paulista.

Almoço: Carlos Orsi trajado a caráter.


Fechamos a conta da mesa e deixamos o Garota da Gávea por volta das 15h40.  A maioria da tribo regressou à JediCon.  Martinho precisava tomar um táxi para o Galeão.  Como senti que o evento em si já havia dado para o gasto, decidi acompanhá-lo até o ponto de táxi informal que costuma funcionar no posto de combustível no quarteirão da minha casa.  Assim, sob o céu escuro e trovões que prenunciavam dilúvio iminente, caminhamos pela rua Jardim Botânico e, previsivelmente a posteriori, fomos surpreendidos por uma forte tempestade de verão mais ou menos à altura do portão principal do arboreto do Jardim Botânico.  Como diz o velho ditado, “o que não tem remédio, remediado está”, até porque, depois que você já está encharcado, a chuva já não desperta mais temor ou desconforto.  Uma vez no posto de abastecimento, paramos um táxi que se dispôs a levar meu amigo até o aeroporto.  Ao chegar em casa, um banho morno mais tarde e eu já estava pronto para outra.
Jardim Botânico, Rio de Janeiro, 29 de novembro de 2015 (domingo).




Participantes:
Adriana Lunardi
Alberto Oliveira
Alexey Dodsworth
Ana Cristina Rodrigues
Carlos Orsi Martinho
Cláudia Quevedo Lodi
Clinton Davison
Daniel Russell Ribas
Eduardo Torres
Fábio Fernandes
Gerson Lodi-Ribeiro
Iuri Torres
João Marcelo Beraldo
Jorge Pereira
Lorena França
Luiz Felipe Vasques
Max Mallmann
Miguel Rodrigues
Octavio Aragão
Ricardo França





[1].  Presente na antologia The Time Travel Megapack (Wildside Press, 2013), organizada por John Bettancourt.
[2].  Presente na coletânea Tempos de Fúria (Draco, 2015).
[3].  Calife já havia sido agraciado com o Argos 2002, na categoria Melhor Livro, pela coletânea Sereias do Espaço (Record, 2001).
[4].  O enredo complexo e instigante de Dezoito de Escorpião gira em torno de uma sociedade secreta estabelecida há mais de meio milênio que desenvolve supertecnologias e as mantêm ocultas do grosso da humanidade para tentar manipular o desenvolvimento de nossa espécie.  A partir de meados do século XX, essa sociedade secreta translada paramutantes humanos para mundo biótico orbitante em torno de 18 Scorpii, para onde já havia levado tribos indígenas ameaçadas de extinção na América do Sul.  Os protagonistas mutantes Arthur, Martin e Laura constituem um trio no mundo biótico de 18 Scorpii perturbando involuntariamente os planos da organização secreta em relação ao destino da humanidade.  Dodsworth elabora uma pletora de ideias pertinentes e originais que, em minha opinião, poderiam ser mais bem aproveitadas se a temática da paranormalidade não fosse tão exacerbada no enredo do romance.  Mesmo não sendo perfeito, Dezoito de Escorpião é original e notável.  Portanto, mais do que merecedor do galardão de Melhor Romance do prêmio Argos 2015.